Não há lua, e o céu está salpicado de estrelas, convidativas a uma observação mais cuidada.
Ela sai do carro e abre manualmente os 2 portões da garagem, como sempre.
Acabou de chegar de viagem, está cansada e com calor.
A garagem não tem luz, mas isso não a preocupa.
Abre os portões, encostando-os à parede, e caminha de volta ao carro, para o estacionar.
De relance, olha para a janela da marquise do 3º Esquerdo do prédio em frente.
Há cerca de um ano que reparou que o vizinho, cada vez que ela arruma o carro, aparece na marquise a espreitá-la.
Ela sente-se incomodada com isso, ele é um cinquentão casado e olha-a duma forma lasciva e desagradável.
E, de novo, lá está ele.
Como sempre.
Ela franze o sobrolho, e entra no carro a pensar: "Ainda bem que não têm porta no prédio para aqui..."
Entra na garagem, e apesar desta ser enorme e dar para mais de 6 carros, arruma o carro no sítio do costume, com atenção à amabilidade dos senhorios que a deixam usar aquele espaço gratuitamente.
Sai do carro, tranca-o, dirige-se à saída e começa a fechar os portões.
Sente um arrepio na nuca, um arrepio frio, olha em volta, mas não vê ninguém.
Ri-se do seu próprio medo.
Tranca o portão de uma porta e dirige-se ao outro.
Uma mão agarra-a por trás, a tapar-lhe a boca, e um braço prende-lhe o tronco.
Assustada, ela debate-se para se soltar.
Mas está cada vez mais presa e magoada.
De lágrimas nos olhos, muda, lança uma prece aos Céus:
"Anjo da Guarda, ajuda-me!!!"
O medo dá-lhe uma força que não sabia que tinha e consegue soltar a cabeça e grita:
"Por Amor de Deus, largue-me!!!
E nesse breve instante, consegue soltar-se e, correndo para o acesso da garagem, grita por ajuda.
Os vizinhos aparecem, percebem o que se passa e vão acudi-la.
Procuram na garagem, mas não encontram ninguém.
Chama-se a polícia.
O Agente Silva e o Agente Teixeira aparecem, ouvem a história que ela lhes conta, ainda em choque e a tremer, sentada na cozinha do casal de vizinhos da frente.
"Suspeita de alguém?...", pergunta o Agente Teixeira.
E ela conta-lhes das miradas do vizinho do 3º Esquerdo, que ela sabe chamar-se João. João Fernandes.
Os agentes deixam-na e vão até ao outro prédio.
Mesmo que não tivesse sido ele, poderia ter visto alguma coisa ou alguém.
Mas eles lembram-se de colegas já terem sido chamados àquele prédio, àquele apartamento, por violência doméstica, e não vão com bons modos.
Sobem as escadas do prédio, tocam à campainha.
Uma senhora de cerca de 40 e tal anos, atende, embrulhada numa bata de cozinha, os pés em chinelos de praia.
Agente Teixeira: "Boa noite, minha Senhora. É aqui a morada do Sr. João Fernandes?..."
Dona da casa, hesitante: "É, sim..."
Agente Silva: "É a esposa, presumo..."
Dona da casa, assustada: "Sim..."
Agente Silva: "Está sozinha, minha Senhora?..."
Dona da casa, de olhos arregalados e nervosa: "Estou, sim..."
Agente Teixeira: "Poderia dizer-nos onde se encontra o seu marido?"
Dona da casa, receosa: "Porquê? O que se passa?..."
Agente Teixeira: "Precisávamos de falar com ele para saber se viu alguma coisa esta noite, ali na parte detrás do prédio..."
Dona da casa, a gaguejar: "Es-esta noite?..."
Agente Silva: "Sim, minha senhora. Ouviu alguma coisa?"
Dona da casa, assustada e com lágrimas nos olhos: "Não..."
Agente Teixeira: "E o seu marido?..."
Dona da casa, a soluçar: "O meu marido morreu, faz hoje um ano..."
2 Assustados:
bem, eu não sei se é por isto ou não, mas comecei a ouvir uns barulhos estranhos de coisas a caírem... e não é o gato, que eu não tenho gatos!...
Garagem para 6 carros?????
ENA.....
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